Leve – Alice Ruiz

Que o breve
seja de um longo pensar

Que o longo
seja de um curto sentir

Que tudo seja leve
de tal forma
que o tempo nunca leve.

 

In: https://balsamobenigno.wordpress.com/2016/08/24/leve/ .

 

Alice Ruiz (1946 – ): Brasileira. Poetisa, tradutora, letrista e haicaísta (fazedora de haicai). Vencedora do Prêmio Jabuti de 1989, pelo livro Vice Versos. Foi esposa de Paulo Leminski. Poesia concisa, musical, concreta, visual.


Um desejo para o fim do ano, que se aproxima.

Ps: Obrigada ao blog Bálsamo Benigno pelas gotas diárias de poesia, em suas mais diversas formas.

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Esboço de tradução #7 – Felicidade | Happiness – Raymond Carver

Felicidade (1985)

Tão cedo que ainda está escuro.
Estou perto da janela, com café,
e com as coisas matinais
que geralmente passam pela cabeça.
Vejo o garoto e seu amigo
caminhando pela rua
para entregar jornais.
Eles usam bonés e suéteres,
e um dos garotos carrega uma mochila no ombro.
Eles estão tão felizes
e não estão falando nada, esses garotos.
Eu acho que se eles pudessem, eles iriam
segurar um no braço do outro.
É manhã cedo,
e eles estão fazendo isso juntos.
Eles vêm, devagar.
O céu clareando,
apesar de a lua ainda pairar pálida sobre a água.
Tanta beleza que por um minuto
morte, ambição, até o amor
não entram nisso.
Felicidade.  Ela vem
inesperadamente. E ela passa, realmente,
qualquer dia de manhã cedo falar sobre isso.

 

Happiness

So early it’s still almost dark out.
I’m near the window with coffee,
and the usual early morning stuff
that passes for thought.
When I see the boy and his friend
walking up the road
to deliver the newspaper.
They wear caps and sweaters,
and one boy has a bag over his shoulder.
They are so happy
they aren’t saying anything, these boys.
I think if they could, they would take
each other’s arm.
It’s early in the morning,
and they are doing this thing together.
They come on, slowly.
The sky is taking on light,
though the moon still hangs pale over the water.
Such beauty that for a minute
death and ambition, even love,
doesn’t enter into this.
Happiness. It comes on
unexpectedly. And goes beyond, really,
any early morning talk about it.


In: <https://www.poetryfoundation.org/poetrymagazine/browse?contentId=36049 >.

 

Raymond Carver (1938-1988):  EUA. Escritor. Reconhecido pelas suas short stories sobre a classe trabalhadora dos EUA e sobre momentos em que as relações humanas colapsam, como casamentos falidos, e desilusões de todo tipo.

Fragmentos de Safo

Você me esqueceu
ou então você ama alguém mais do que a mim.
[LP 129]


Acho que alguém se lembrará de nós em outros tempos.
[LP 147]


O crepúsculo já surgiu,
as Plêiades também: meia-noite,
as horas passam
e eu me deito, uma mulher só.
[Voigt 168B]


Uma vez mulheres cretenses dançaram assim
com passos suaves no tempo
em torno desse lindo altar, docemente
pisando na grama macia.
[Incertum 16 a & b – Fragmento de autoria incerta, também atribuído a Alceu]

 

You have forgotten me
or else you love another more than me.
[LP 129]

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Moonset already,
the Pleiades, too: midnight,
the hour passes
and I lie down, a lonely woman.
[Voigt 168B]

---
I think that someone will remember us in another time.
[LP 147]

---
Cretan women once danced this way
on gentle feet in time
around the lovely altar, softly
treading the tender flowers of grass.
[Incertum 16 a & b]



In: POWELL, Jim. The Poetry of Sappho. Oxford University Press, 2007. 
Disponível em: <http://www.projethomere.com/ressources/Sappho/Poetry-of-Sappho.pdf> .

 

Safo de Lesbos (aprox. 630 a.c – 570 a.c): Grega, nascida na ilha de Lesbos. Com o passar dos séculos, a vida de Safo transformou-se em lendas a respeito de sua aparência física, opção sexual e da autenticidade dos poemas a ela atribuídos. Sabe-se que era de família abastada, e possivelmente estudou ou geriu um gineceu (espécie de escola só para moças, cuja associação com Safo resultou no termo lesbianismo). A escrita de Safo é a lírica grega, com versos, por ventura eróticos, sobre o amor e sentimentos, a convivência entre moças e aspectos ritualísticos da época. Como restaram apenas fragmentos de sua poesia, identifica-se os excertos conforme o nome do autor da coletânea de origem (Voigt = Eva-Maria Voigt; LP = Lobel & Page; Incertum = fragmentos cuja autoria é questionada a depender da coletânea). Não se sabe como seus versos foram transmitidos ao longo do tempo, mas percebe-se sua influência em outros grandes nomes da Antiguidade, como Catulo, Horácio, Píndaro e Ésquilo.

—–
Obs: Lembramos.

Esboço de tradução #6 – eu repito a mim mesma – ich wiederhole mich|Lea Schneider

[eu repito a mim mesma]Poesia para tempos de transição

 

Eu repito a mim mesma. em qualquer lugar longe, onde se ativou o modo-arquétipo: tecer, desfazer, mil e uma correções. ganhar tempo, no qual eu possa desfazer os fios, as peças de lego, casas pré-fabricadas, arrancadas peça por peça, lapidar o castelo, destruir até a sua base de plástico duro, na qual se ergue, e lá instalar uma área protegida, com aquecimento próprio incluído. desde que a minha certeza disso precise: aquecimento. um meio para fixar as coisas, como cola em bastão ou redundância. Empilhando histórias dentro de uma história até os ombros, em seguida, desfazendo imediatamente, a insaciabilidade como critério ampliado do seu êxito. O que mais importa: não encontrar um fim, mas buracos na trama, os quais eu consiga desenvolver. um esconderijo no cliffhanger, em referências contínuas, para frente e para trás.

 

[ich wiederhole mich]

ich wiederhole mich. irgendwo weiter vorn, wo sich der archetyp-modus eingeschaltet hat: weben, auftrennen, tausendundeine korrektur. zeit gewinnen, in der ich fäden lösen kann, die legosteine, plattenbauten, stück für stück auseinanderrupfen, die burg schleifen, abtragen bis zur hartplastikbasis, auf der sie steht, und dort ein schutzgebiet einrichten, standheizung inklusive. sofern meine sicherheit das braucht: wärmezufuhr. ein mittel zur fixierung, wie prittstift oder redundanz. die schachtelgeschichten bis auf schulterhöhe stapeln, dann sofort wieder rückgängig machen, unerfüllbarkeit als erweitertes kriterium ihres gelingens. worauf es ankommt: kein ende zu finden, sondern fehler im plot, die ich ausbauen kann. ein versteck im cliffhanger, im ständigen verweisen, vor und zurück.

In: Invasion rückwärts, Verlagshaus Berlin, 2014. 
Online: <https://www.lyrikline.org/de/gedichte/ich-wiederhole-mich-12715#> .

 

Lea Schneider (1989 – atual): Alemã. Autora e tradutora (alemão – mandarim). Integrante do coletivo Lyrikkollektiv G13. Atualmente dedica-se a tradução de autores chineses contemporâneos e à curadoria de eventos literários em Berlim. Vencedora dos prêmios Dresdner Lyrikpreis, em 2014, pelo livro Invasion Rückwärts, e Postpoetry.NRW-Preis, em 2018.

CHARNECA EM JÆREN – Cecilie Løveid

Alguma vez você se
culpou

pelo instante
em que se apaixonou?

Quando finalmente começou a sentir
os estertores?

Você enxerga a si mesma.

E tudo
se intromete no caminho
de tudo.

 

 

[TORVMYR, JÆREN]

Kan du bebrejde deg selv
for det

øyeblikket
du bli forelsket?

Når det endelig begynner
å surkle?

Du spejler deg.

Og alt
renner i veien
for alt.

In: Um poema nórdico ao dia—Eitt norrænt ljóð á dag—En nordisk dikt om dagen <https://www.facebook.com/pg/nordrsudr/about/?ref=page_internal >. Traduzido do norueguês-bokmål por Leonardo Pinto Silva e Luciano Dutra na Feira do Livro de Gotemburgo.

 

Cecilie Løveid (1951 – atual): Norueguesa. Escritora, dramaturga, poetisa. Figura central na renovação do modernismo norueguês, brinca com teatro experimental. Entre seus temas principais estão a relação corpo – língua, comunicação e a escrita/literatura/arte como meio de contornar o absurdo/vazio da existência [tornar menos sofrido, eu diria].

 

Obs 1: Recomendo fortemente seguir a página  Um poema nórdico ao dia—Eitt norrænt ljóð á dag—En nordisk dikt om dagen . É um projeto muito interessante, com conteúdo novo todo dia. Vários poetas, com várias temáticas distintas. Vale a pena conhecer!

 

Obs 2: Quem nunca, né?

Esboço de tradução #5: Escritos | Écrits – Colette Peignot

Escritos

A vida responde – não é vão
a gente pode agir
contra – a favor
A vida exige
o movimento
A vida é o curso do sangue
o sangue não para de correr nas veias
eu não posso parar de viver
de amar os seres humanos
como amo as plantas
de ver nos olhares uma resposta ou um apelo
de explorar os olhares como um escafandro
mas permanecer lá
entre a vida e a morte
a dissecar ideias
epilogar sobre o desespero
Não
ou imediatamente: o revólver
tem olhares como o fundo do mar
e permaneço lá
algumas vezes caminho e os olhares se cruzam
tudo em algas e detritos
outras vezes cada ser é uma resposta ou um apelo.

 

Écrits

La vie répond – ce n’est pas vain
on peut agir
contre – pour
La vie exige
le mouvement
La vie c’est le cours du sang
le sang ne s’arrête pas de courir dans les veines
je ne peux pas m’arrêter de vivre
d’aimer les êtres humains
comme j’aime les plantes
de voir dans les regards une réponse ou un appel
de sonder les regards comme un scaphandre
mais rester là
entre la vie et la mort
à disséquer des idées
épiloguer sur le désespoir
Non
ou tout de suite : le revolver
il y a des regards comme le fond de la mer
et je reste là
quelquefois je marche et les regards se croisent
tout en algues et détritus
d’autres fois chaque être est une réponse ou un appel.


In: <https://fleursdumal.nl/mag/laure-colette-peignot-ecrits>.

 

 

Colette Peignot (1903-1938): Francesa. Também escrevia sob o pseudônimo de Laure Peignot. Profundamente marcada pelo sofrimento decorrente da morte do pai durante a 1ª Guerra Mundial, uma grave tuberculose aos 13 anos e abusos sexuais durante a adolescência. Usou sua herança para financiar jornais e revistas de inspiração socialista. Usou seus affairs com intelectuais da época (Georges Bataille) para questionar o papel da burguesa, da mulher, do erudito. Usou sua escrita para ressaltar o valor cognitivo do sofrimento.


Notas:

  1. O desafio de aceitar olhares inesperados de estranhos (como eu) no caminhar.
  2. Vida como movimento e circulação – do sangrar e do fazer sangrar, em mim e em você, respostas e apelos [vão…apenas se contrariar nossas expectativas?].

ABC |Para o meu próprio poema – W. Szymborska

ABC    (2002)

Jamais vou descobrir
o que A. pensava de mim.
Se B. até o fim não me perdoou.
Por que C. fingia que estava tudo bem.
Que papel teve D. no silêncio de E.
O que F. esperava, se é que esperava.
Por que G. fingia, já que sabia muito bem.
O que H. tinha a esconder.
O que I. queria acrescentar.
Se o fato de eu estar ali ao lado
teve qualquer importância
para J., para K. e para o resto do alfabeto.

 

 

Para o meu próprio poema   (2012)

Na melhor das hipóteses,
meu poema, você será lido atentamente,
comentado e lembrado.

Na pior das hipóteses
somente lido.

Terceira possibilidade –
embora escrito,
logo jogado no lixo.

Você pode se valer ainda de uma quarta saída –
desaparecer não escrito
murmurando satisfeito algo para si mesmo.

 

In: SZYMBORSKA, Wisława. Um amor feliz. Tradução de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras. p.236; p.314.

 

Wisława Szymborska (1923-2012): Polonesa. Editora de uma revista de literatura. Declarava ter uma vida simples, sem maiores atropelos, salvo pelo prêmio Nobel de Literatura, em 1996, o qual lhe fez conceder inúmeras entrevistas [cansativo, imagino]. Poesia irônica, que mistura uma linguagem leve e a acuidade de um olhar espantado com o viver.


Notas:

  1. Quais palavras, frases, parágrafos formamos com o alfabeto das pessoas de nossas vidas?
  2. Leitura sem recepção </> do que ir para o lixo?